Aos 45 do segundo

Ela era feia, muito magra, tinha lábios finos e os dentes pretos de tanto fumar. Era como uma versão junkie da Bruxa Onilda com anorexia. E com as unhas sujas. Vestia uma saia que ia até o joelho, mostrando aqueles gravetos horrorosos no lugar das canelas, a blusa era meio hippie com umas pinturas à lá Roger Dean, e o cabelo naturalmente esgadanhado. Marquei de encontrar com ela na livraria para tomar um café, mas acabamos indo para o boteco encher a cara mesmo.

Era a primeira vez que eu encontrava Elaine. Antes do encontro, conversamos por chat muitas vezes, trocamos umas fotos, alguns telefonemas, mas nunca tivemos a oportunidade de nos encontrar. Talvez eu nem estivesse com vontade de marcar um encontro, nunca passou pela minha cabeça sair com alguém assim. Gosto de mulher com bocão, peitão, coxão e bundão. Elaine definitivamente não me interessava. O problema é que eu sou homem e, assim como a maioria dos homens, dificilmente recuso o convite de uma mulher.

Chegamos ao bar. Eu e a fubanga esfarrapada. Era um boteco metido a barzinho do centrão, cobrava um pouco mais caro do que os outros, mas bem aconchegante. Valia a diferença. Percebi que ia morrer em uma grana para tomar cerveja com mulher feia, mas nem tudo estava perdido. De vez em quando, pensar com a cabeça de cima pode ser mais confortante. Em situações como essa, a noite pode valer pelo bate-papo, o tira-gosto, a cerveja, a música, enfim, o descanso depois de um dia de trabalho. Eu poderia encarar tudo como um saudável happy hour a dois, mas não foi o caso.

Já começou a me dar nos nervos quando ela disse que prefere Skol. Beber Skol com mulher feia não tem nada de divertido. Tive que beber muito para ficar bêbado rápido, daí a Skol ficou boa e a Elaine deixou de ser feia. Como se não bastasse a feiura, os dentes podres e as pernas finas, a desgraçada bebedora de Skol fala igual pobre na chuva, e o pior, só fala merda. A única coisa esclarecedora que ela falou durante toda a noite foi “não repare nas minhas mãos sujas, sou artista plástica”. Ainda bem. Foi aí que descartei a hipótese dela ser usuária de crack, e se desfez o mistério da nhaca preta nos dedos da infeliz.

Pedimos a conta. Pensei: vamos ver se essa merda serve ao menos para pagar um boquete. Veio a conta. Ela disse que estava com pouco dinheiro e que precisava de algum para comprar a passagem de volta até a cidade dela. Paguei a conta sozinho. Pensei de novo: se essa mula não chupar direito, vou cobrar minha grana da conta depois. Saímos do bar e percebi que a noite poderia melhorar. Eu estava no centrão, bêbado, acompanhado de uma boceta igualmente bêbada e com grana para o motel.

Uma das vantagens de se sair com uma louca bêbada é que nem precisa de muita conversa na hora de ir pro motel. Já fui entrando com ela e pronto. No caminho do “Sanma” fiquei neurado com um lance que nem passou pela minha cabeça: e se ela for soropositiva? Jandão, você tá meio que fodido se não colocar a capa no bicho dessa vez. Entrei com a ossada fedida para o quarto e minha primeira providência foi pedir pra ela tomar um banho. Ela ficou de calcinha e entrou para o banheiro.

Não reparei como eram os peitos dela quando ela tirou a blusa, mas vi que tinha uma bundinha legal de dar umas metidas. Gostei. Deixei até escapar uma risadinha marota no canto da boca enquanto escutava o chuveiro, sentado na cama. Nem tudo estava perdido. Quando ela saiu do banho, só de toalha, apagou a luz, deitou em cima de mim e cochichou “como você gosta?” no meu ouvido. Tirei a toalha dela e vi que eram bons peitos. Foi uma noite com final satisfatório. Vitória de 1×0 aos 45 minutos do segundo tempo com gol de pênalti.

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Uma resposta para Aos 45 do segundo

  1. Paulo disse:

    ha hah a hah a hah a ha ha a que romântico, Jandão…

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